sábado, 2 de julho de 2016

De A a Z


Já eram 3 da manhã quando A e Z observavam uma cadeira que não parecia servir para sentar.

A - Design se refere a imagem e a superfície.
Z - Não é só isso.
A - Não?
Z - Um conjunto visual opera inúmeras experiências... Moldar o toque pode transformar formas de vida.
A - Uau! Profundamente superficial.
Z - Ou superficialmente profundo?

A e Z viraram as costas para aquele objeto e tiraram a roda que estava em cima de um banco, logo ao lado. Tentaram dividir aquela pequena circunferência. Ali, eles poderiam terminar a conversa que só servia para aproximá-los - quase a função de um sofá.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Esquentando

"Vestida de Michelle Obama (siiiim, vestido l-i-n-d-o e acinturado, meio anos 50), ela corre para pegar o ônibus. Como se entregou em excesso ao sol na adolescência, hoje evita a estrela maior abusando de protetores solares que derretem junto com o suor, acentuado pelo chapéu de abas mega largas. O motorista abre a porta e acelera antes do pé tamanho 35 quase perder sua sapatilha. Ela percebe que o calor carioca se mantém dentro do transporte público e pergunta, esbaforida, se o ar está funcionando. O motorista do ônibus não perde a oportunidade: "Por que faz faculdade pra não ser capaz de perceber se o ar está ou não funcionando?". É que a suada mulher carregava seus livros e estava perto da PUC. Ele conclui, com a ira dos desprivilegiados, que ela merecia punição. Mas, como o calor carioca é democrático, ela não teve tolerância para perceber que ele tinha razão e que sua fala continha inclusive uma deliciosa ironia: resmungou para o motorista que fizera apenas uma pergunta, que não queria ofender ninguém. Ele não se alterou e respondeu o seu mantra contra a falta de perspicácia da mulher. A mesma retrucou que não queria ser conduzida por ele e que iria descer. Ele parou e esperou a mulher descer para dizer: ''Otimo, derreta aí fora!". Não basta estar vestida como primeira dama quando o calor carioca invade a cabeça e ela gritou, publicamente, a palavra "estúpido" uma centena de vezes.O ônibus seguinte tinha ar condicionado que funcionava e, aí sim, ela se sentiu vingada."


"Saiu de casa para beber uma água de coco no calçadão e voltou depois de 2 saquês. Triste porque iria à festa pálida de tanto acordar tarde deu com a surpresa das surpresas: seus olhos foram atingidos por uma bolsa-bambolê e pensou em como Chanel pode ditar qualquer tendência, por mais esquisito que o produto seja... A dona da bolsa, porém, explicou que não era fashionismo sem noção, não. Trata-se de uma bolsa-studio de bronzeamento! Uns sprays milagrosos que não te deixam laranja, segunda ela assegurou, são aplicados em uma espécie de barraca com pé direito alto (disfarçada de bolsa). Ficou cheia de vontade de experimentar, mas a vanguarda da pele dourada estava atrasada para atender a próxima cliente e nossa heroína não escondeu sua vampirice em mais uma de suas noitadas."

quarta-feira, 25 de julho de 2012

HELL DE JANEIRO - O NOIR BRONZEADO virou camiseta




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terça-feira, 3 de abril de 2012

Betinha espertinha

Betinha era fã de um ritual e tinha uma semiologia para cada substantivo - conversar com a minha amiga sempre significava algo além do que o ouvinte pudesse imaginar.
Marcava os dias em um calendário e percebeu que a maneira como os riscava talvez expressasse o que ela intuía, visto que era apenas um segmento do uno primordial, : a energia predominante, a direção do seu destino.
O mundo, no entanto, é cheio de surpresas! Naquele dia, ela não incorporou outra maneira de produzir conhecimento sobre o que ainda nem existe, o futuro, para apreciar o Agora.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Mini estória da Ana Maria

"Mais uma segunda feira com listas de atividades....",  Ana Maria pensa antes de se levantar. "Um pouquinho sempre e muita atenção com a respiração para não perdê-la para ansiedade", ela repete o mantra que aprendeu com a nova terapeuta... "Vai dar para fazer tudo, sempre deu", Ana Maria conclui, arrematando: "O que não dá mais é para duvidar e perder tempo com isso, e que seja feito o primeiro café".

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Marilena Soneghet sobre o Hell de Janeiro - o noir bronzeado



Hell de Janeiro - O noir bronzeado

(uma resenha para Carmem – por marilena soneghet)

Editado pela Ed. Multifoco – RJ - 2011, o livro “Hell de Janeiro – O noir bronzeado” – de autoria de Carmem Filgueiras é um livro intrigante, instigante... a começar pelo título misturando três idiomas: hell – inferno em inglês, cuja pronúncia lembra uma corruptela de “rio”, no caso... “de Janeiro”, e o conhecido termo francês “noir”, numa referência procedente aos ambientes e acontecimentos (alguns sinistros) que permeiam o livro. E aí entra um bem humorado “bronzeado” – bem carioca, que lhe confere uma certa ginga inusitada.

Escrito em treze capítulos, a gente fica na dúvida se é uma novela onde a sequência entre um e outro capítulo não segue uma lógica ortodoxa, ou se são treze contos que acabam se entrelaçando pelo clima, um discreto mistério, personagens que vão e vem sorrateiramente - e é esse ressurgimento que dá unidade e pincela o mistério.


Quem conta as histórias – em terceira pessoa - convive numa boa com o mundo intelectual, circula pelo mundo da moda, conhece os bastidores do teatro, freqüenta festinhas onde rola algo mais que um prosecco, assiste com certa nonchalance à desova de um corpo dentro de um saco preto, escreve teses acadêmicas, lê Nietzsche, Baudelaire, Zaratrusta, indecisa-se ante um ela(e) de saiote dourado, sapatos de bico fino, esconde/mostra veladas críticas à mesma sociedade que freqüenta.


E quem é que conta as histórias? é a tal que se apresenta como Carmem Judiths (uma das poucas personagens do livro que “fala” em primeira pessoa (?) ou a coincidência do nome é um "alteregozinho". Sei lá! Só sei que quem conta as histórias é com certeza um observador(a) inteligente, cujo olhar penetra o âmago, denuncia veleidades, põe a nu as fraquezas, realça contrastes. E tem um faro fino.


A autora, que também se chama Carmem (mas que eu acho não tem nada a ver com a tal Carmem Judiths) com seu jeito único de escrever, mostra um aprofundamento raro em pessoa tão jovem; narra com desenvoltura história bizarras com boa dose de ironia crítica, mas não julga seus personagens. Seu estilo é direto, enxuto,sem firulas, moderno.


Ao longo da leitura diverti-me a sublinhar frases e conceitos de deliciosa ironia, humor, malícia... e outras contendo citações que além de denunciar erudição, evidenciam seu modo singular da analisar o mundo. Pensei em transcrevê-las aqui, nesta resenha, mas são tantas e tantas que teria que copiar metade do livro. Portanto...

...leiam Hell de Janeiro para como eu, deliciar-se com o noir bronzeado de situações, personagens e descrições ímpares.

Parabéns, Carmem! Acho que você achou seu caminho! bjão de sua fã - Marilena


sábado, 5 de novembro de 2011

Processo L II

As madrugadas sob efeito de cafeína produzem encontros singulares, capazes de transformar em realidade a matéria dos sonhos. Orlando entregou-se a outro de seus vícios, Facebook, e percebeu os diálogos prontos, apenas carentes de um enquadramento.


http://carmenfilgueiras.blogspot.com/2011/07/processo-l.html
2 de julho de 2011.
Processo L I:
(...) Naquela noite de insônia, Orlando criou os alter egos de seu ser polifônico.
"Imannuel, Friedrich, William e Edgar moravam em L., no ano 20., e dividiam o apartamento da rua G.", Orlando escreveu.
De repente, a tela em branco pareceu o oposto, em cores, do céu um de uma noite estrelada. Seu teclado era pressionado por dedos velozes e seguros; cada palavra era desenhada não por um fluxo emocional ou intelectual - ou qualquer outra das bobagens dos poetas -, mas pela certeza de quem descreve um amigo. (...)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Qual gramática vc está usando?

A segunda vez em que fui ao Maracanã, estava do lado do Botafogo e assisti à performance da torcida do Fluminese. Achei lindo o pó sobrevoando, criando efeitos de luz... Depois soube a razão do pó e não dá mais pra achar linda essa história... Nada contra pó branco, mas há que se reconfigurar o sentido desse signo, talvez misturando as cores... Signos são um perigo! Pensei em colocar kkk pra reafirmar a piada sobre pó branco, mas antes de ser um riso, kkk era outra coisa... Qual a referência que gritará na leitura???
No meio da crise semântica, a campainha toca. São duas crianças que eu amo ter como vizinhas. Pessoas que fazem eu sorrir só de olhar! Ontem elas me pararam na saída de casa com a curiosidade própria, animada e estimulante porque viram meu maiô rosa - bem pink pra nenhum jet ski me atropelar - "fugindo" da camiseta azul, meu disfarce pro meu elemento kitsch. Ficaram felizes por terem acertado que eu ia pra piscina - crianças são detetives. Eles tocaram a campainha porque estão vendendo brownies, dando aula sobre a cultura protestante que ensina crianças a cozinhar, fazer dinheiro e se divertir com isso, enquanto a cultura católica faz as crianças aprenderem a usar a piedade como elemento dos negócios...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Gramado verde enquanto não chove

A super gostosa Rock me daria maior estrutura para escrever, mas eu perderia o contato humano que o campus impõe. Nem tão humano, já que um esquilo maluco atravessa o caminho e me faz parar a escrita, e pensar "o que ele viu naquela árvore?". Os estudantes de vinte e pouco aumentam suas vozes pra discutir sobre o fato de procurarem uma mulher como Scarlet Johansson... Adoro ser interrompida pela energia do ambiente, vejo a minha bateria sendo recarregada (enquanto a do computador acaba). Eu sou o tipo de pessoa que precisa de vida pra escrever, indiscutivelmente produzo melhor quando estou feliz. Por isso, prefiro o gramado verde no começo do outono e as bibliotecas quando chove. Ok, concordo que meus posts estão com assinatura de habitante da Fofolândia e vou procurar um pouco de trevas na aula de amanhã, cujo sutil tema é A simples arte do assassinato.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Prefiro assim: no play, no gain

Jogando, não sentimos a dor. O músculo só percebe o esforço quando o calor da partida se esvai. Na vida, não é muito diferente. Se estamos inteiros, na prática, não há tempo pra esfriamento. Porém, que chatice!, somos humanos e uma hora o corpo precisa parar... Ainda bem que podemos escolher o que vai nos restabelecer e deixar mais fortes pra próxima partida, somando milhas. O jogo fica ainda mais estimulante conforme as consumimos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Rock

 A crise econômica é comentada diariamente e o número de desempregados é menor do que o de pessoas que não acredita mais no american dream... Lamenta-se que as megacorporações se desloquem pelo globo em busca de mão de obra barata enquanto os indivíduos sofrem inúmeras provações para circular pelo planeta  procurando trabalho. Está tudo errado!, grita o meu senso (que, como o de qualquer um, é sempre o bom senso). Afinal, não é decente a qualidade de vida a que seres humanos são expostos sob o temor de o pouco virar nada. Coisa mais do que óbvia! Por essa mesma linha de raciocínio, meu amigo americano conta o que estudou na escola sobre o Brasil, nos anos 90: país cujas riquezas naturais são estupidamente devastadas. Talvez por isso,  hoje é uma economia forte e quem faria diferente?, ele finaliza. O errado ganha sempre?, pergunta outra amiga americana cujo rímel borra seu rosto marcando o choro de uma conversa sobre seguro desemprego - a mesma pessoa que há pouco me perguntava delicadamente se podia me abraçar (traumatizada pelo boom de processos de assédio sexual desde aqueles mesmos anos 90). Sigo pra minha pesquisa na biblioteca Rockefeller, na Brown University, que recebeu o carinhoso apelido Rock. Ali, com a firmeza da rocha e a descontração do ritmo musical, tenho o que sempre me seduziu na cultura americana. Aquele cheiro de livros me inspira e eu não acredito em pesadelos, eu sou o sonho global, e sei que festa boa é a que todo mundo se diverte.

sábado, 2 de julho de 2011

Processo L

(...) Naquela noite de insônia, Orlando criou os alter egos de seu ser polifônico.
"Imannuel, Friedrich, William e Edgar moravam em L., no ano 20., e dividiam o apartamento da rua G.", Orlando escreveu.
De repente, a tela em branco pareceu o oposto, em cores, do céu um de uma noite estrelada. Seu teclado era pressionado por dedos velozes e seguros; cada palavra era desenhada não por um fluxo emocional ou intelectual - ou qualquer outra das bobagens dos poetas -, mas pela certeza de quem descreve um amigo. (...)

sábado, 25 de junho de 2011

O que você mais quer? O que você não faria para ter o que mais quer?

"O que você mais quer? O que você não faria para ter o que mais quer?". Estas duas perguntas criaram o campo de proteção para a ética que Santiago buscava antes da reunião entre os mais importantes da indústria farmacêutica peruana. Lembrando da amiga brasileira que citava Marta Medeiros, repetiu consigo: quando for passar pelo que não te faz bem, pegue um atalho. Aquelas duas perguntas encurtaram a dificuldade que tinha em dizer "não" para muitos milhões que não entrariam em sua conta a partir daí e, ainda assim, sorriu com sinceridade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Sorria: você sobreviveu

Copacabana sabe o que é sorrisar, verbo que acompanha o Sorriso, do espetacular Posto 5. Pra surfar uma daquelas ondas, o sujeito tem que furar alguns litros que se configuram como quilos bem pesados amalgamados que estão a água e a areia. Quem sobrevive, sai sorrindo e é por isso que o pico recebeu esse nome... Sim, o gato da Alice passou por lá.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Minha noite assistindo ao Ronaldo

Sentada em uma mesa de um bar pra estudante$, vejo um menino de cabelos longos, óculos de grau e uma guitarra em seu case nas costas. Ele se aproxima, pára concentrado na tela atrás de mim que transmite o jogo entre o Brasil e a Romênia. Ao lado da minha mesa, uma garota de cabelos bonitos retira os sapatos para conversar mais confortavelmente com seu amigo de moicano e sempre de olho na tela. Entra Ronaldo. Fico emocionada. Começa a ladainha sobre o futebol e me desinteresso, e penso em escrever o que escrevo agora. Até que percebo que o Ronaldo estava no campo, mas ainda não tinha entrado - sim, sou daquelas que não sabe o que é um impedimento... Aí ele entra de verdade. Fico emocionada. De novo. Toda vez que ele chuta. A narração é chata, peço ao garçom para abaixar. O garçom nem me olha. A narração diz 43 do segundo tempo. Será que ele vai fazer? "Juiz paralisa e marca a falta", diz o narrador e eu pareço ouvir algo dito pela torcida que parece ser acompanhado da palavra "cu". "Todo mundo joga pelo Ronaldo... Juiz chato", diz o narrador. Agora faltam mais dois min. Falta um. Acabou. Mas, a ladainha chata sobre futebol continua...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Desculpas psicanalíticas.

Dr. David não aguentava mais aquela sua paciente. A mulher reclamava quando fazia sol e quando não fazia sol. Entre uma reclamação e outra, transformava sua face e parecia que tinha tido um pensamento que lhe faria sair daquele muro de lamentações... só pra frustar o psicanalista, que passou a comer um biscoito no fim de cada sessão. Em uma espécie de torpor promovido pelo grão branco, não era tomado pelo humor desolador de sua paciente...
Certo dia, a paciente chegou tremendamente feliz, explicando que conseguira parar de repetir pra si mesma o mantra tudo-vai-dar-errado e, espontanemente, deixou de frazir a testa. Quando terminou a sessão, Dr. David foi fazer o que sempre fazia e percebeu que já estava comendo dois pacotes em vez de um biscoito. Na sessão seguinte, deu alta pra sua paciente. E quis comer dois pacotes e mais um biscoito...

sábado, 21 de maio de 2011

Experiência em DRs

Maria estava casada com João há cerca de treze anos. Eles sempre reclamaram das mesmas coisas e nunca uma DR teve tema diferente. Eram especialistas na arte de tentar mudar o ponto de vista do outro. Mas, no exercício da prática do amor, conseguiam recuar e respeitar a diferença. Cada vez mais as discussões eram mais curtas; não porque pouco a pouco mudassem de opinião assumindo a outra perspectiva, apenas queriam aproveitar por mais tempo o que, afinal de contas, os uniu.






quarta-feira, 4 de maio de 2011

Se eu fosse paulista...

Se eu fosse paulista... eu seria paulistana e o texto do sábado passado teria saído no sábado passado.
Se eu fosse paulista, teria mais piercings.
Iria mais ao teatro.
Comeria mais comidas de países variados.
Teria mais gripe, nariz entupido e colarinhos brancos escurecidos.
Eu me divertiria mais.
Usaria mais analgésicos.
Compraria mais coisas bonitas e usaria muito mais meias calças do que uso...
Se eu fosse paulista, leria o MAIS da Folha. Mas, eu não sou paulista e acho que sou mais feliz por isso.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Aos 5 anos

Ontem fiquei mais amiga de dois meninos que têm 5 anos, embora um deles insista em afirmar que tem 9. Faz cara de chateado e diz que tem 9 de tal maneira que eu só digo que ele tem 5 porque sua mãe me contou. As mães não se enganam, certo?
Os meus dois amigos de cinco anos jogam futebol, choram quando não fazem gol e, se o playground vai ficar fechado, a bola vai parar na privada. Pode parecer assustador, mas eles são seres humanos mais perto da própria vontade e menos seduzidos pelo jogo infinito da linguagem.

sábado, 16 de abril de 2011

Como é mesmo aquela sentença do Anaximandro?

Bebel ainda prestava concursos para agente policial quando, após acender seu cigarro da terra dos cowboys, colocou os pés para cima e ligou a tv. Era uma sexta feira e ela já terminara o romance do Conan Doyle que escolhera como companhia. Depois de seguir as pista da máquina de raciocinar, viu-se presa ao maravilhoso mundo da natureza da Patagônia. Diante das geleiras enormes que despencavam com a chegada do verão, percebeu que o inspetor (que tanto tornava o seu estágio na delegacia uma experiência sacrificante) era pequeno, muito pequeno e que, tal como as geleiras, vamos todos despencar um dia. "Como era mesmo aquela sentença de Anaximandro?", perguntou para si mesma . Não lamentou o estado ora sólido, ora líquido as coisas, mas, com seu espírito contestador, começou a correr 12 quilômetros por dia.

domingo, 10 de abril de 2011

Over the rainbow

Dorothy quer encontrar o Mágico de Oz para conseguir voltar ao seu lar. No caminho, ela convida o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. Ela seguiria sozinha pelo caminho dos tijolos amarelos porque é o que queria fazer, tinha um objetivo. Mas, como os 4 têm interesse em enfrentar a Bruxa do Leste porque é o processo necessário para conquistarem seu lar, seu cérebro, seu coração e sua coragem, Dorothy encontrou companhia. Não é interessante ter alguém ao seu lado desinteressado na viagem e é injusto querer transferir para o outro a sua dificuldade em seguir o seu caminho.

sábado, 2 de abril de 2011

Daqui a pouco passa.

Doeu. Mas, faz tanto tempo e é tão diferente. O objetivo pode ser o mesmo, mas não é o mesmo porque lemos o contexto de outra maneira. Um antigo vício irrefutável é negado pelo ocupado "não quero agora" e o movimento para o novo é instaurado em uma recente sinapse que te leva ao inédito. Escolher bem e escolher a todo minuto. Sem tensão. Só tesão pelo segundo em que se vive.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Fazendo porque quer

Uma escritora com a tela em branco: eu.

Seria bom pensar em algo nos próximos 35 min... O fim de semana será agitado e não teria tempo. Além do mais, o computador está desligando sozinho e isso não pode ser um bom sinal.

Pensando pela lógica do mercado, se eu não escrever nada nos agora 34 próximos minutos, não perderei nada (o número de leitores não é suficiente pra gerar renda...). Mas, a lógica do mercado não é a única força motora deste planeta. Aliás, é a mais fictícia. É a loucura das nossas cabecinhas... 32, 31...

sábado, 12 de março de 2011

Reavaliando as proporções

A pessoa acorda com um assustador barulho.
A pessoa entra no banheiro e recebe três pedras na cabeça.
Três pequenas pedras.
Em cascata.
A pessoa olha pro teto e percebe que o  responsável pelo conserto do banheiro acima não a avisou que aquilo poderia acontecer.
Sim, a pessoa uiva.
Sim, a pessoa perde a calma.
Construções...

_________


A pessoa acorda com um assustador barulho.
A pessoa entra no banheiro e recebe três pedras na cabeça.
Três grandes pedras.
Em cascata.
A pessoa olha pro teto e percebe que o  responsável pelo abrigo não a avisou que aquilo poderia acontecer.
Sim, a pessoa uiva.
Sim, a pessoa perde a calma.
Tsunamis...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Sintoma

Todas as vezes em que Carlos ia ao psicólogo (e estamos falando de 3 sessões por semana), passava em uma loja muito tradicional de queijos. Infelizmente, ele tinha que evitar derivados de leite e nunca os experimentou, ainda que levasse sempre uma novidade para Lia.

Lia e Carlos eram namorados desde a oitava série e amigos desde a quarta. Casaram quando terminaram a faculdade de Administração. Sempre moraram em uma vila pequena, um bairro afastado do centro, e trabalhavam com os negócios da família que se concretizavam nos limites do pequeno núcleo de vizinhos.

Era sábado e a noite prometia. Foram pra festa oferecida por amigos cujas famílias já se conheciam há décadas. O ambiente era de total conforto entre todos. Para quem quer que Carlos e Lia olhassem, podiam reconhecer um traço que lhes dizia o sobrenome.

Em dado momento, um senhor que poderia, em idade, ser o pai de Carlos, perguntou-lhe por que ia ao psicólogo tantas vezes. Carlos não quis entrar em detalhes, mas explicou que durante o período da faculdade ficou muito ansioso, a ponto de perder o sono e quis resolver seus fantasmas. Garantiu que dormia muito bem e que não deixava de freqüentar porque sua ansiedade ainda lhe atrapalhava quando tinha prazos muito apertados.

À 00:40 de domingo Carlos e Lia estavam no carro, voltando para casa. Um cruzamento mal sinalizado e um terrível acidente.  Lia morreu.


(Leitor/a: Temos dois finais. Por favor, releia o parágrafo anterior e siga para o abaixo. Depois, leia o anterior e siga direto para o último.  Achei os dois trágicos no mau sentido e não gosto deles - o que significa que inserir esse papo metapost é minha estratégia pra sair daquelas trevas. Assim, este é o parágrafo final, ok?)



Final 1: As idas ao psicólogo pararam de acontecer.


Final 2: Como perdeu interesse pela vida, Carlos deixou de ficar ansioso e a pequena vila viu um homem definhar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Saindo da linha

Mulher sozinha na praia, lendo, percebe que uma sombra se aproxima... A dois braços de distância, à sua esquerda, vê um cara com sacos de pano que coloca na areia o que trouxe: era um despacho. Ele pede pra mulher dar uma olhada enquanto ele vai até a água... Ela fica impressionada e reage com uma expressão que não expressa nada... Ele ignora a sua não reação e vai dar um mergulho. Ela vai embora. Segue para o NA do seu bairro e, pra entrar na linha, sai dela.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Flores

Ainda cansada, pensou que poderia ter escolhido um caminho mais florido. E não teve medo de mudar de direção.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sem noção

Fernando acordou tarde aquele dia. Ligou a tv enquanto esperava a água quente passar pelo pó - milagre que produz a bebida que lhe despertava,  o café.
Tinha ido dormir tarde, depois de beijos e abraços doces, carinhosos. Entre sorrisos, pensou na mulher apressada ao ponto de sair de sua casa antes que ele pudesse  pedir seu número de telefone. Ela tinha uma missão importante, mas não quis contar o que era.
O café ficou pronto e foi derramado por Fernando, assustado  mais com o que via na tv do que com o calor da bebida preta que tornava rosa o seu colo.  Ainda encantado pelo perfume da mulher desconhecida, reconheceu o rosto angelical com legenda de "Presa a única  mulher que comanda os atentados no Rio de Janeiro". Sarcástico que era, pensou: "o crime organizado é machista". Saiu para comprar o outro pó que lhe despertava; era o seu jeito de acalmar o que lhe incomodava.

sábado, 6 de novembro de 2010

Entre balas

Uma sucessão de 35 tiros. Entre eles, um intervalo de silêncio cheio de expectativa e temor, uma terrível ausência da trilha sonora que antecede a ação. Ela não podia mentir para Juca, 9 anos - o dia estava ensolarado, sem nuvens e não era possível chamar aquilo de trovões... E, afinal, Juca era um garoto pálido e molinho como são todas as crianças criadas em apartamentos e super protegidas pela família, mas estava longe de ser um alienado. Até receber a trigésima sexta bala - perdida por quem?

sábado, 30 de outubro de 2010

O rock acabou

A biblioteca de Borges dele se chamava Wikipedia. Loiro e jovem, visitou seus amigos, os irmãos Metralha, em uma noite de sexta feira. Beto, o mais novo e mais tatuado dos dois, ofereceu um cigarro não industrializado enquanto o estalar de uma latinha de cerveja gelada fez pingar algumas gotas, refrescantes, em Vitor e uma breve discussão familiar se instalou. Os três ligaram a tv para assistir ao debate dos presidenciáveis de 2010. Dormiram. Não saíram. Não enfiaram o pé na jaca. Dormiram. No dia seguinte, a constatação: "o rock acabou". Acenderam um cigarro industrializado e beberam café despedindo-se da Terra do Nunca.

Beto acaba de ler o que eu escrevi. Arthur, o amigo loiro, fixa o olhar e me pergunta com evidente sinceridade: "Por que você transformou uma piada em um momento melancólico?"

sábado, 23 de outubro de 2010

A estrada da Barra

A estrada que liga o Rio de Janeiro ao Espírito Santo tem margens de um verde que pinta os vales e é cortado por rios, lagos, vacas, galinhas e silêncio. É um tempo diferente do meu. Da janela do ônibus em que viajo, vejo que o vento despenteia as árvores imprimindo e expressando o movimento do ar. Do tempo diferente (será mesmo?) do meu. Uma menina de talvez cinco anos veste uma camiseta muito maior do que seu número. Ela a puxa para cima dos joelhos; não quer tropeçar, quer correr mais rápido. É sua agitação que afasta dois pássaros pretos pousados na crista de um cavalo branco, velho, manso - de quem certamente comem os piolhos. O vento sul está na mesma direção do meu ônibus que segue para o norte e espalha a fumaça na estrada. Que dia lindo aquele em que os homens descobriram o fazer o fogo...

sábado, 16 de outubro de 2010

Sexta mulherzinha

Em um prédio modernista da Glória, com vista para o Aterro, aconteceu um almoço entre amigas; mulheres de 30 anos que davam um passo definitivo na contextualização de um mundo adulto. Entre bebês já nascidos e os ainda sonhados, entre as amigas casadas e as solteiras, havia um laço que desenhava as diferentes opções de cada uma: a vida profissional é uma preocupação para todas. Mas há outras questões... Uma das amigas solteiras lançou o problema: tinha 31 e estava interessada em um colega de classe de 25. Outra amiga de 31 anos disse que faria 32 em dois meses e que, mesmo assim, aceitou sair com o cara de 23 anos que conheceu há 2 semanas - só precisava entregar um trabalho antes para ter cabeça para aquela nova história. Observei o diálogo delas e percebi com estranhamento que aquilo realmente pudesse ser uma questão em um mundo adulto. Elas tinham 15 anos e estavam vestidas de 31! É a imagem mais assombrada que vi nos últimos tempos...O termo assombrada me fez lembrar que ainda tinha que ler sobre essa passagem do Benjamin e voltei para casa, fugindo da quarta garrafa de vinho e uma tarde que viraria noite adentro.
Pagar contas e criar mais contas para pagar em um fluxo que possa dar prazer a quem tem esse estilo de vida maluco (ou seja, todo mundo) - essa é a vida burguesa que lutamos para ter ou manter... No meio tempo, obras de arte! Nada é mais burguês do que se entreter com obras de arte quando não está multiplicando capital... O anti burguês se derrete diante da obra, fica ali fundido e fudido com ela. Hehehee, não é pro cardápio do dia a dia de qualquer um. No fundo, a percepção sobre a obra é mesmo uma bobagem. Nada é mais significativo do que a verdade de cada uma (entre designers e filósofas) sendo respeitada e valorizada na tarde mais feminina, divertida, charmosa e com comidas gostosas dos últimos tempos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Carreiras

O filme de Domingos Oliveira é pra quem tem bons ouvidos ou não se incomoda por não ouvir tudo - eu faço parte do segundo time. Adoro que comece com a chamada para a maravilha do digital que, se não é tecnicamente perfeito, ao menos distribui emoção mais democraticamente por ser tão mais barato. Eua aind apor cima assinti no Cine UFF, aquele paraíso da cultura de massa, 2 reais para todos às segundas!!

O Rio de Janeiro de Domingos é boêmio, charmoso e meio decadente como a jornalista criada por Priscilla Rozenbaum. A noite tragicômica de uma jornalista em crise ética dá chance de o espectador ver o Rio com intimidade. Ela é ótima, fala como uma metralhadora movida a pó, com o senso de humor característico dessa turma que produz tanto com a sigla.. poxa, esqueci qual é a sigla, mas é algo que termina com aa de alto astral.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Confissões de uma Aniversariante: 29 anos e curto Pitty

Eu gosto mesmo do cd Anacrônico.

Comprei em uma hora que as letras davam o maior pé e criei apego emocional por Memórias, Ignorin'u, Brinquedo Torto, Na sua Estante. Mas não é o último, não. Tem um ao vivo que saiu junto com os 30 anos da bahiana.

Eu também curto Charlie Brown Jr. e, paralelamente, não tenho interesse por N x O (?).

O que tem me intrigado é: o que será da cultura pop com a evidente redução dos vídeos de música na programação da MTV?

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Kate Moss acadêmica





Eu sonho em ler um ensaio acadêmico sobre Kate Moss, ou melhor, sobre o seu conceito - que ocupa milhares de mentes, movimenta milhões em compra...
Ela incorpora a vida hedonista, a nossa terra prometida e seu senso de moda vulgariza, no bom sentido, o punk. A eterna festeira Moss namorou os caras mais charmosos do planeta, convive com uma elite cultural específica em que há uma unidade ideológica de uma democracia que só exclui os cafonas e os cafonas são todos aqueles que pensam em outra coisa que não em celebrar a vida. Mesmo que com exageros...
Escrevi isso e veio certa culpa marxista, afinal, entre os excluídos da patota de Kate, há aqueles que têm que imitar Chaplin em Tempos Modernos e não conseguem dar conta de ser cool... Se bem que não há nada mais cool do que Chaplin em Tempos Modernos - que merda! Estou me tornando uma cética cretina e lá vai mais uma coisinha burguesa: ela fica melhor sem franja.


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Os Sertões do Zé Celso 04/10/07

O Rio inteiro fala com emoção dos Sertões do Zé Celso. Desde os amantes de Kant aos do candomblé. E não podia ser diferente: até os maus humorados são tomados pela vida...

Marilyn Manson na Fundição 25/09/07


Depois de enfrentar a fila mais agradável e de cabelos coloridos da minha vida, o segurança pediu pra eu terminar minha Ice antes de entrar. Pediu a mesma coisa pra três pessoas atrás de mim e uma delas respondeu: "isso aqui é rock n'roll, vamos beber num só gole!!!!". E assim foram, lindas, pra dentro.

O show começou um pouquinho atrasado para o relógio físico e pontualíssimo para a pulsão emocional. Eu estava no segundo andar quando Manson entrou com seu microfone/faca e a performance poderosa que se manteve ao longo do show. Na primeira música, comento com alguém ao lado "não entendo qual é a dessas pessoas que ficam querendo pegar nele....". Resposta: "parece bobo, mas quando tem paixão a gente não pensa nisso. Se você estivesse lá, não ia estender as mãos?”.



Muita gente disse e escreveu que o show foi fraco, que há dez anos a performance foi realmente boa, que o príncipe das trevas está na meia idade e já era... Cara, eu não concordo!!! Aquele homem prova como sexo e morte são juntos e colados, como marilyn e manson e qualquer noção de oposição se alimenta de um elo umbilical indissolúvel e que lhe dá identidade. Numa boa, vida longa ao Anticristo Superstar e seus seguidores!!!!